O IMPÉRIO DO NOVO

O império do Novo se impõe. Sempre se impôs, mas, de acordo com o ofício de cada um, o Novo se torna uma ditadura ou um prazer. O Novo é objeto de trabalho do jornalista, principalemente daqueles que cobrem música. O Novo é auto-explicativo e motivo de publicação apenas por ser novidade. A busca do Novo, do diferente do último, é tarefa de quem é pago para mostrar isso antes dos outros _em tese, o jornalista. Conheço muito bem quem faz isso por gosto e por obrigação e conheço melhor ainda quem fez isso pelos dois motivos.

Dito isso, digo mais. Fato é que esse monstro que é o Novo cega, esteriliza os sentidos e sobretudo vicia. É uma droga como outra qualquer, que provoca síndromes de abstinência e momentos de euforia e depressão. O Novo é mais veloz do que você. Sempre. Essa é a dinâmica do processo: você tenta estar, na melhor das hipóteses, ao lado dele, mas nunca estará à frente, por mais que esse seja o seu segredo secreto. É inglório e você sabe disso, sabe sim. Há o medo também. O medo de ser ultrapassado pelo Novo. De ser muito ultrapassado pela Novidade, de ser deixado para trás, de se tornar Velho, o inimigo mortal do Novo.

Eu consumi e ainda consumo o Novo com certa voracidade. E este ano percebi que estou… Cansado é um termo impreciso para definir. Estou entediado com o Novo. O Novo e a Novidade não me dizem mais a que vieram. O fato de serem Novos dá um prazer, sempre dará, mas existe um outro prazer, talvez mais consistente (talvez isso seja um vulcão de clichês), que é o de saborear o que um dia foi o Novo.

Isso é os 30, presumo. Olhar para os lados e enxergar um mundo que já foi gerado, que um dia foi o Novo e que pode ser muito legal se não for visto despido da cápsula lúdica e sedutora da Novidade. As coisas se revelam como são de verdade depois de deixar de ser o Novo. Esperar isso acontecer (ou “acontecer” e envelhecer junto com o fato) está se revelando um tipo de prazer até então desconhecido.

Listas de lançamento não me seduzem tanto mais. Vou esperar que o “último disco” seja um “disco legal” _e aí ele tem a imunidade da atemporalidade para ser consumido como se deve. Chega de urgência, mas que continue havendo o Novo sempre (meu nome é Neo..).

Só não obedecerei como antes os seus critérios. Primeiro porque posso, segundo porque é diferente do que fazia, o que não deixa de ser uma Novidade.

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