DONA CANDINHA

Sexta-feira à noite, voltando da padaria com uma garrafa de vinho, no elevador de casa. A companhia (involuntária) era a vizinha evangélica do 8° andar:

_Oi, tudo bem?

_ Tudo bem.

(silêncio de uns dois andares)

_Você pode me achar louca, mas posso te fazer uma pergunta?

_Pois não, claro (sim, não seria a primeira demonstração de loucura dela; depois explico).

_ Você tem alguma coisa programada para hoje à noite?

_Er… Gasp!.. a-ram.. er… Não.. Mas acho que sim, sim. Por quê?

_Não, nada.. Ia te convidar para ir a um lugar…

(Gente, o que estava acontecendo naquele elevador? O que era aquela mulher toda crente perguntando aquelas coisas numa sexta-feira à noite? Onde estava o 8° andar que não chegava, cristo?)

_A um lugar? Posso perguntar que lugar é esse?

(Ela se aproximou e sussurou, como se dissesse um segredo ou algo proibido, e arregalou um pouco os olhos)

_À igreja… Boa noite. Até logo.

(A porta se fecha)

_Quaquaquaquaquaquaquá.

@@@@@@@@@@@@@@@@@@@@

Essa mulher é uma das duas filhas de uma senhora evangélica, muito conversadora (mais do que as filhas), que mora no 8° andar do meu prédio. E, por alguma razão que desconheço, são as vizinhas que mais encontro no elevador (moro no 12°). É uma loucura, porque não temos horários em comuns, tampouco atividades similares, nada. Mas são elas as mais assíduas nas minhas viagens de elevador (elas devem dizer o mesmo, mas, para elas, eu sou um alvo a ser catequizado, hehe). A moça do diálogo acima já me deu um flyer da igreja “dela”, salientando que era bom, legal, que eu ia gostar. “Vai lá.”

A mãe delas, cujo nome me esqueço _é um nome dissílabo de madame, tipo Lila_ é a “companhia” mais freqüente. Desconheço quem mora no 7° andar, mas das moradoras do 8° sou capaz de revelar algumas histórias _dessas que um delegado acharia muuuito esquisto um vizinho saber e alegar que não conhecia a família caso houvesse algum crime por lá.

Essa Lila é capaz de contar a vida *inteira* dela do 8° ao térreo. É realmente impressionante a oratória dos evangélicos. Numa vez, não só ela contou onde nasceu, há quanto tempo estava em São Paulo e que temperatura fazia na cidade dela, como o que ela estava indo fazer naquele momento e há quanto tempo o táxi que ia levá-la (o carro estava com o marido) estava esperando-a. Era de tirar o fôlego.

Ela é daquelas que pedem para a empregada “ir chamando” o elevador enquanto ela acaba de “se aprontar”, que pedem coisas absurdas ao porteiro a ponto de não ser levada a sério (uma vez eu vi o zelador girar o dedo próximo à orelha, logo depois que ela falou com ele…), que, se vir alguém chegando no portão, esperam pacientemente a pessoa entrar no elevador (educada dois tons acima, sã?).

Já vi essa senhora chorando, já vi alegre, discutindo com as filhas, arrumando a gravata do marido (que não deve apitar nada em casa) e, mais recentemente, tirando umas caixas de papelão do elevador às 3h da matina, que, como ela fez questão de esclarecer, “estão indo viajar”. E completou: “Vocês devem estar se perguntando: quem é essa louca descarregando caixas a essa hora da manhã?” Nah… magina…

E invariavelmente essa Lila se despede como uma personagem de romance do século 19: “Passar bem”. Bom, pelo menos não é “amém”.

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