NOJA

Certo dia me reencontrei com um então colega de trabalho que havia passado seis meses num país europeu. Seis meses é pouco tempo para ter qualquer tipo de sentimento em relação ao Brasil, onde ele nasceu. Ele tinha certeza que todos achavam que ele era intelectual, apesar de sua pouca idade, o que lhe dava uma confiança extra: além de “intelectual”, era menino-prodígio.

O moço usava camisa de jazzistas com rostos gigantes de Thelonious Monk, Miles Davis como a falar alto: eu gosto de “música de qualidade” e vocês nem sabem o que é isso, está claro? Até aí, nenhum problema, as pessas gostam do que gostam pelos motivos que acham mais convenientes.

O que fodeu mesmo foi esse reencontro _breve, brevíssimo. Durou o tempo suficiente para perceber que ele estava usando óculos de aros pretos e grossos (0,25 de astigmatismo, revelou ele; ou seja, o motivo dos óculos era o apelo “intelectual” dos aros!) e para ouvir uma resposta curta, mas nauseante.

Perguntei do que mais ele sentira saudades do Brasil nesses infinitos seis meses de ausência. Depois de um breve momento pensativo, olhar perdido ao chão, lábios cerrados e esforçados, a resposta: “Do povo… Da conversa com o taxista, desse contato mesmo, sabe?”

Num filme imaginário, um jato de vômito verde a la Alien estaria voando em direção àqueles óculos de aros pretos e grossos.

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